terça-feira, 21 de junho de 2011

o que fazer quando se perde a inspiração

faça silêncio,
faça força,
reze, mentalize,
peça pelo amor de Deus, Zeus, Alá, Buda, Sílvio Santos,
se agarre em fé,
não se desespere,
entenda, morda as mãos,
bata a cabeça na parede,
invente desculpas...

'não, não é isso,
simplesmente não tenho tido vontade de escrever,
nem sei porque, só não quero'

'caneta? lápis? o que é isso?
ah, sim, não, não tenho mexido com isso não,
ando trabalhando muito'

'meu relacionamento me mantém ocupado o bastante,
pare de me atormentar, terá em breve sua poesia!'

durma mais horas por dia,
mesmo que não possa,
não escreva nem cartões de natal,
pare de dar autógrafos para si mesmo, afinal você não é ninguém!
sinta-se em casa no meio da rua, longe de tinta e folha branca,
chame os amigos e se envolva com mulheres da vida,
use drogas,
beba muito e perca a consciência,
desmaie mais para evitar pensamentos que possam ser transmitidos em palavras e versos tortos,
pense menos, o que não será tão difícil, visto o quanto fazemos esforço para parecermos mais inteligentes,
abrace finalmente quem você é,
descubra pouco a pouco que sua cabeça é do mesmo tamanho que a de todos os outros mortais,
não minta sobre ter visto filmes clássicos da década de 40, um dia você pode ser perguntado sobre quem foi Clark Gable ou Katherine Hepburn e não saberá responder,
ou melhor, minta mais,
saiba menos,
leia mais... revistas de fofoca,
escute Luan Santana,
faça negócios com Jorge Couto Mafalda, seja lá quem ele for.

O que fazer quando não se tem inspiração?
se masturbe mais,
cada vez mais,
o sexo estimula muito o corpo e a mente,
mas o sexo consigo mesmo só consegue deixá-lo exausto e se sentindo sem atrativos,
ligue para a sua mãe e conte a ela sobre seus problemas com prostitutas, drogas e álcool, e veja o que ela tem a dizer.

o melhor remédio, acima de todos os outros, é fingir que nada acontece e escrever assim mesmo, lixos sem compreensão.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

vômito

não sei o que escrevo, sei que é puro sentimento,
estranho ver a mente funcionando,
que serventia há aqui, santa ignorância?
é um privilégio a minha mediocridade,
vem as palavras de dentro e querem tirá-la de mim?
com que direito sou eu imaculado por coisas irrisórias,
coisas que não sei como explicar,
juntar tudo, fazer falar,
cantar, e escrever?
perguntas sem respostas, guitarras, feridas a mostra,
é o olho do guerreiro que treme antes de matar,
é a caneta, que cai da mão quando vai riscar,
é a borracha que rasga o papel quando vai apagar.
não quer apagar.

nada apaga,
o que fica são lembranças borradas,
que são encontradas, na verdade em qualquer canto do mundo,
seja você pobre, imundo,
seja você rico, insosso,
seja a minha vida a sua,
intensa ou morta.
seja.
simples, exposta,
cortada e arrancada,
arregaçada com palavras fortes e muita 'merda' para todos.
mas não há todos, estou sozinho, posso assegurar,
poemas curtos e divindades a adorar,
não acredito em nada, nem tenho do que reclamar,
encho poemas de verbos para nada,
nem em mérito algum entrar, e volto a mim.
sempre assim, repito palavras, expressões,
morte, negro, podre, coisas que impressionam,
na verdade de nada importa,
minha mente é perturbada como a de todos os outros ridículos que passam por aqui,
que desmaiam de decepção.
não quero saber.

um toque mágico, borboletas,
ninfetas fazendo caretas,
devaneios,
versos feios,
frases feitas,
de tudo um pouco.
a escolha é sua,
o que fazer?
o que ler?
a quem recomendar, se valer a pena.
sinceramente, recolho-me à minha insignificância

um poema não é lugar para reflexões,
percepções à toa.
um poema é luz de velas,
é felicidade instantânea pra qualquer pessoa.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

de vez em quando também penso em sentimentos nobres

ahhhhhhhhhh, acordei,
me sentindo moderno,
esbocei sorriso,
mas não consegui.
me abri, me encantei,
senti o cheiro das rosas brancas
no jardim lá fora,
senti o sopro de vida entrando na casa,
vibrando do nada, pulando e cantando
tirando de tudo uma lição.

de vez em quando olhava por detrás do ombro,
se alguém me seguia, ao ir pro trabalho,
alguém se esgueirava, eu sentia, marcava, meus passos seguia,
diabos! dizia e nada eu via,
mas como veria? tão cego de ambição?
cantando aquela mesma canção, não dava muita atenção.
no fim cheguei ao destino, encarregado, vivo,
cheio de mim mesmo, responsabilidades, alardes, chamadas.

a rotina tomava conta da sala, do prédio, da rua,
a viela no centro da cidade,
como seria a vida em bora bora, oahu, etc. como?
não conseguia imaginar,
nem sonhar, que sonhar é brega, dizem,
e nada quero esperar.
vou me enterrando em silêncio,
dispenso problemas de marca maior,
aliás, é o que mais tenho, todas essas vidas que vivi,
só problemas tenho pra mostrar,
e um poema que agora ensaio,
nesse mês de maio que não acabará.

mas dentro disso também há esperança,
nesse destempero e delírios mil,
essa rotina, desgraças de março, que o fim de julho estará por vir.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

motivação

eu olhava e olhava aquele pedaço de papel,
começando tão metalinguistico quanto qualquer outro,
olhava e escrevia,
poesia,
ardia em mim,
sem ter o que fazer,
sem chorar, nem querer,
infinitivar,
morrer,
eu olhava e olhava.

eu olhava com prazer aquilo à volta,
sem pobreza, tão nobre e morta,
sem riquezas, sem nem porquê,
dizer se vinha ou não vinha,
inspiração, tirar de onde?
sei, tem gente que tem montes,
mas não era por querer.

não adianta escrever,
sem ter consigo o sentimento,
sem carregar algum tormento,
sem tocar nem instrumento,
sem a sensibilidade crítica,
monolítica,
sem ter nada na cabeça,
mas tendo alguma certeza e pondo pra fora.

agora, se tens tudo isso,
não perca seu tempo,
vamos deixar de fingimento,
que de inteligência já morreram tantos,
entregues a vida bandida,
à bandalha ferida que os queria mal.

e se tiveres algum pensamento,
guarde pra ti mesmo e não me amole,
não coloco em meus versos sujeira,
besteira, poeira que imacule a prole.

algo me dá forças para continuar,
não quero escrever mais, é bem verdade,
mas como não atender a chamados superiores,
divinos sabores e temperança?
se fosse ainda ontem eu teria me esquivado,
me salvado,
salivando de vontade de me enterrar vivo e nunca mais... nada,
mas não é tanto assim que eu vivo, não mesmo, meu senhor,
é de viver que se entende, e eu andava meio desentendido mesmo,
escondido de me sentir bem,
a vida me lembrando assim que ainda tem o que se tem,
e aí a gente olha pra frente.

quando a gente tem um outro,
coisa nova, ventos novos,
esperança,
a gente dá valor,
mas se for só por isso, a vida não tinha cor
e tudo ia pelo ralo, não?
não.
ou talvez sim, mas não nos cabe ser, só aceitar,
e um dia uma linha que seja, pode te salvar das alegrias,
que essas passam mais rápido do que foi a idade da terra.
não.
o que fica são as mudanças,
se não totalmente suas,
pelo menos tem seu toque,
identidade,
que se faz de sua imagem e semelhança,
sem Deus, que esse não olha, só cria,
e não destrói o sorriso de uma criança.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

espera

se arrastando como uma falha no tempo
maio vai passando e levando consigo minhas ilusões,
e até junho chegar, já me cansei de compor canções,
e quando julho resolver se iluminar,
penso em agosto e em minhas esperanças
tolas, em sua grande essência
pois quem espera, jamais alcança.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

sombrio

aquele que duvida do meu talento, mas nunca duvidou do meu coração, Thiago Catarino.

vazio, escuro,
sozinho, sem vida,
triste, sóbrio,
neutro, podre,
morte, sem sorte,
avante guerreiros da noite em suas inúmeras definições,
só alguém que tenha estado no lado negro do mundo
pode voltar com determinadas percepções,
palavras todos usam,
mas jogam, necrosando ao vento,
soprando sem medo o ferimento,
ferida de dor e desgosto,
em pleno mês de agosto,
quando a vida volta a brilhar.

mas agora o que só tenho é o olhar,
marcado por tristeza e ócio,
será que posso ser de outro jeito?
terei de ficar sem jeito quando pensar em calores?
que sou eu já sem amores?
quem bate a minha porta a procura de sabores,
só encontra o amargo do féu,
não, amigo, não há mel para quem se transformou no próprio ferrão!
adocicando poesias em vão, estragando textos e prosas e versos e notas,
e acordes em fossas, sinfonias inteiras sem som,
surdez acumulada, drama, não há fama, então coma!
coma tudo que vier, coma a vida, coma a morte,
se convença que não temos nada a perder,
pois no final, o que ganhamos até aqui?

de que me vale ter essa realidade, menos morta,
se nem ao menos me foi dada a força bruta,
que suportar já me estafa tanto,
e tanto faço para respirar teu pranto.

e o meu. bem, eu mesmo só quero é gritar,
gritar aos sete ventos, chorar,
chorar sobre os tormentos e dizer,
sem ninguém escutar.

esse poema péssimo e ruim,
forte e desnecessário,
não teria sentido,
se aqui desse lado,
estivesse alguém que de fato tivesse algo a oferecer.
não teria sentido,
mais ainda do que uma pessoa feliz,
não ter o que querer.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

mundo.

dizem que estamos perdidos,
dizem que estamos sozinhos,
dizem que estamos sem terra,
dizem que estamos na terra,
dizem que estamos estranhos,
dizem que estamos sem lema,
dizem que estamos sem hino,
dizem que estamos sem cena,
dizem que estamos banalizados,
também dizem que estamos quebrados,
mas se dizem, esvaziem os bolsos,
e há quem diga que estamos sendo enganados,
dizem que não há dilema,
dizem que na vida, não há ponto sem nó,
dizem que estamos em esquema,
em conluio, em um comboio só,
dizem que não nos misturam,
com certas raças, cores e certezar,
mas minha raça é a dos poemas,
e carrego em cores as tristezas,
de quem não tem certeza de mais nada,
mas de certezas faz-se andar pra frente,
carregando esse estandarte,
para um mundo sem dó nem pena,
descanso a pena e hoje já sem prumo,
digo, em meus sonhos que irei descansar,
começo um poema sem um rumo,
mas com a rima eu vou terminar.
período

não sei o que escrevo.
me sinto cruel demais, escuro, turvo,
em cima do muro, em trevas, cantando aos quatro ventos,
venenos, ventosas, loucas, nossas,
como são nossas as esperanças!
quem espera, nada alcança,
aumenta a pança e as dores,
de cabeça e de amores,
de tristeza e só.

não sei o que faço,
não tenho quem dê um abraço,
me invento, escasso,
problemas demais,
cinema demais,
a vida estranha demais,
eu quero paz,
mas só um pouco,
não tanto assim,
que de tanta paz morre um desavisado,
de tantas atribulações,
morre, sem tempo, um sonho.

que sonhos são esses meus que não morrem,
nem se realizam,
procuram só abrigo,
algo que lhes dêem sentido,
algo que me queira bem,
então vem cá, amor,
e juntos nos apaixonemos por nós mesmos,
sem ter nem de direito,
aquilo que nos quer também.

terça-feira, 12 de abril de 2011

antigamente

antigamente me sentia estranho,
sem cor, sem desejo,
antigamente não sentia gosto,
nem mesmo o gosto do beijo,
sempre entrava em confusões tremendas,
aquém da minha compreensão,
quando saía, pior a emenda
de quem me pôs nessa situação.

antigamente eu me sentia fraco,
jogado, exposto, cuspido ao chão,
não tinha forças para um abraço,
um afago, fosse, um sorriso, um não,
quisera eu estar tão de repente,
sempre contente em uma só razão,
quiseras tu fazer de mim carente,
sem teus amores, num só coração.

antigamente eu me fazia eterno,
que perdurasse na memória tua,
sempre que olho pras estrelas berro,
teu nome em minha mente sempre nua.
e agora entendo que já não consigo,
deliberadamente já me esqueço,
o que um dia fiz, te dei abrigos,
pra rejeitar de novo o que ofereço!


terça-feira, 5 de abril de 2011

minha vida com carlos


O clima de Minas ia melhorando aos poucos. Do calor quase insuportável de dezembro até o friozinho de gelar a coluna e não deixar a gente sair da cama, com um medo danado de se resfriar, em julho. Era assim no Brasil todo. Era assim na minha amada Itabira.

Eu nunca tive mãe, e desde que tive idade para trabalhar, eu nunca tive pai. Conheci cedo a maldade dos homens, tendo eu mesmo ainda pequeno cometido várias delas, mas não queria nem saber. Eu era itabirano, forte, e tinha que sobreviver, nem que encontrasse ainda muitas pedras no caminho, embora minhas retinas não estivessem lá tão fatigadas assim. Eu não amava ninguém, e o personagem principal da minha vida ainda não tinha entrado na história.

Tinha largado a escola pra ganhar o mundo bem moleque. Mundo esse que não passava de Belo Horizonte de carona em caminhão de transportar galinhas. Mas isso me ajudou a ver o mundo de outra forma. Sem educação a gente aprende as malícias do destino e acaba conhecendo mais as pessoas, tomando rumos. E assim foi.

Se os bondes tilintavam abafando o calor e o vento, esse me trouxe alguém pra amar, mas ainda que o próprio amor. Às vezes um botão, às vezes um rato, nesse caso um homem. Eu mendigava comida, cachaça ou pedaço de pão velho no auge dos meus dezessete anos e já tinha sido preso algumas vezes por crimes não violentos. Os que me conheciam da rua me chamavam de “ Luís Fracote” e tamanha era a tristeza em mim, que nem mais queria admitir vida. “ inútil você desistir ou mesmo suicidar-se “, disse o homem na primeira vez que seus olhos encontraram-se com os meus. Não pude acreditar como era inusitado e velho, o seu corpo chamando a atenção, curvado. Resolvi aceitá-lo como alguém confiável, sendo eu, mesmo assim, mais esquivo que um gato assustado. E ele me aceitou como alguém reparável, que podia ser consertado. E assim foi.

“ Não há muitos jantares no mundo”, pensei eu. Não no meu mundo, onde a delicadeza dava lugar à miséria e de nada adiantaria o velho senhor dar-me toda a comida que tivesse, pois no momento em que saísse dali, a fome voltaria. A fome era meu estado de espírito. “ Há uma cidade em ti que não sabemos”, disse ele após o jantar. Ele descobrira uma Itabira em mim que ainda não havia visto em nenhuma viela, porta aberta ou o que quer que fosse. Eu era a flor que nascera na rua, feia, mas ainda assim uma flor. E ele sabia dizer coisas que amoleciam meu coração de asfalto, e minhas pétalas outrora fechadas como a pureza da alma e todas as lembranças violentas que na verdade nada diziam, se abriram e foram alçar voo numa viagem patética para outro lugar que não perto de mim. Ele, o velho Carlos, dizia que me daria algo para a vida toda, para guardar. Nada cruel ou obscuro e sim alvo como um passeio na neve tão distante. O meu querido Carlos me daria conhecimento. Itabira era um deserto e agora parecia uma viagem em família. E assim foi.

Livros, cartas, geografia, coisas divinas que eu nem sabia o significado foram mostradas a mim como manda a cartilha e ainda mais. O poeta, funcionário público, geógrafo, professor, farmacêutico e dentista, me ensinou seus ofícios e finalmente eu era alguém. Vi com ele os períodos da idade da terra, a antiguidade, a maldade dos homens ( que eu achava que conhecia mas, que horror! ), a idade da crise e o verdadeiro poder das palavras. Sim, Carlos sabia usar as palavras para o amor maior, e dizia que o amor verdadeiro não tem tradução, e se escreve com letra maiúscula, pois está muito além de sua própria significação.

O mundo era tão inválido quanto minha vida fora um dia, um descarte, um câncer, uma felicidade invertida. “O mundo não vale o mundo, meu bem”, ele repetia e repetia, até mesmo quando a tosse vinha e eu voltava pras ruas, rezar por ele como um filho chama pelo pai. Diga a ele que é culpa de alguém e leva um cascudo daqueles!. Dia desses perguntei:

- Vô Carlos, mas desde que o mundo é mundo, é que tem maldade né?

- É sim, meu filho, o que tem isso?

- Isso é tudo culpa da falta de vergonha dos homens!

- E você o que sabe dos homens? O mundo não vale a pena, mas não cabe a nós julgar. Estamos todos juntos sob o mesmo teto de vidro, cuide de si mesmo, olha para seu umbigo, e contribua com idéias, é isso que faz desse mundo um pouco melhor.

- Sim, senhor, eu respondi, mas ainda era novinho pra entender aquilo tudo com clareza. Hoje sei que o vô Carlos tinha razão. O mundo não tem tanta maldade assim. Só pouca gente de cabeça cheia e um bando muito grande de cabeça vazia. O mundo é talvez, e só isso, quem tiver certeza debruça mas nada alcança.

Esse tipo de diálogo ia aumentando o nível a cada dia. Eu cresci e o vô Carlos virou seu Carlos. E só Carlos depois disso. Não queria entender que a tosse um dia o levaria embora, antes mesmo da velhice. Não aceitava que não poderia mais vê-lo amaldiçoando o bendito leiteiro da rua Namur, por nunca aparecer na hora do café, coisa que ele não fazia tempos antes, quando achava que o barulho nada resolve. Eu dizia que ele era um senhor que acorda, resmunga e volta a dormir. Ele sorria e respondia coisas como “Pois é possível? Pergunto aos jornais, todos calados!”, e eu não entendia. A mente de Carlos era muito aguçada para um ex menino de rua que agora era recém formado em Direito, pudesse entender .

E eram onze horas da noite.

Agora eu morava no calor do Rio de Janeiro, quis me distanciar muito dele. O medo dele, o medo da morte. O telefone toca em Vila Isabel e a próxima coisa que faço é pegar um avião de volta ao paraíso, que só era paraíso porque ele estava lá. O tempo de conhecer mais pessoas, aprender a viver com elas, ajudá-las, já havia passado. Era um corpo sem vida, com mais vida do que os que pairam por aí. Ele era iluminado.

Virou poema com oitenta e cinco, mudou minha vida inteira e seus últimos dias pareceram-se muito com os meus, seus últimos minutos se pareceram com os meus. Seus últimos suspiros eram os meus. O amor, o vento, Itabira, as moças, à morte, Maria Julieta, tudo se confundia no balançar das folhas. O silêncio era tão global e logo o mundo escureceu antes de nascer uma estrela. Eu não estava preparado.

Mas o que se passa afinal? Com todo o pranto que lancei por tantos anos, volta, enfim, a tristeza de outrora, o grande vazio como se sua influência de nada adiantasse em meu coração esburacado por sua ausência e ao mesmo tempo batendo forte com sua presença.

Agora, ainda mais velho, em meu leito de horror e dor, chamo por ele em delírio e choro. Choro tanto, meu Deus. Mas o que se passa? Agora em meus últimos momentos, posso com certeza afirmar. Tudo. O mundo, sim, vale a pena, mas só porque ele esteve lá. Sua essência em mim, protegendo contra a ignorância tão comum e ordinária, como se fôssemos um só. Então pare. A vida acabou. Ou talvez tenha sido somente ilusão.

E assim foi.

poema escrito sob a antiga porta de carvalho riscado

tenho um mundo de incertezas,
caretas, pequenas mesas,
presas e entrevadas,
entrevistas,
pessoas mal amadas,
aniquiladas por dentro e por fora,
outrora felizes querendo morrer.

a dignidade se vai em cada esquina,
e o momento é encerrar-se,
iniciar-se como homem,
aos que somem,
se escondem,
ainda que montem um cavalo branco de esperança,
quem se alcança em sua sombra,
furando a onda da vida,
se dar ao vento e ler a beleza
de véu e burca.

de um jeito ou de outro,
um trevo, um morto,
um tempo, um desgosto
de julho à agosto,
um simples, composto
de um bem querer,
se dar, se abater,
lidar, se opor ao por-do-sol,
em prol do amor,
viver sem ver o tal,
a alegria,
irradiar,
infinitivo,
sorriso de ver amor sem cor,
sem dar nem receber.

profundidade,
olhar nos olhos e ter,
entrar nos sonhos e confirmar
sem entender aquilo,
sem medo de perguntar.
por que isso acontece?
temos que ler coisas desse jeito?
ao menos impondo respeito
consigo não ser em vão.

e perdurar, e perdoar,
mesmo sem um pingo de dignidade.
mesmo sem um pingo de mim mesmo pra contar.
ligação às nove e reflexão de uma vida inteira

estava jantando,
alguém me ligou,
sei lá,
tentou conectar,
fazer conexão,
e nada adiantou.
estava ligando e não pôde atender,
nervoso que estava mandou avisar de janta,
conheço tuas manhas e travas,
entraves, mordaças que não te fazem outra coisa
senão manter pensamentos desordenados.
desagrados, abraços,
coisas que nem sei dizer,
ainda que pensasse um monte,
não saberia o quê digo,
e rindo termino,
escrevo,
sozinho,
uma razão só que me dê,
abrindo caminhos,
ligando e tentando
minha alegria então reaver.

quarta-feira, 23 de março de 2011

equidistância

aqui,
vem cá,
equi,
calar,
tem que,
virar,
se vir,
amar,
caber,
cousar,
e se?
entrar
e adentrar
o sonho é seu,
só seu o pesar,
só sua alegria,
só sua elegância,
desculpe se sua felicidade,
é a nossa equidistância,
então volta,
e se revolta,
vamos nos rebelar.


segunda-feira, 14 de março de 2011

certo dia

ela apareceu, ainda rindo,
constrangimento de atraso,
mas que não por culpa dela
acabou por tirar-lhe tempo de vê-la,
brilhando de beleza, aquele ar de irritada,
cansada de ser, da jornada,
ele enervou, pensou e aí já era tarde,
como uma ilusão, ele andava,
como se em nada fosse, pisava,
e tudo que via era meio sombra, longe de casa estava.

lugar vazio ainda que cheio,
só a via e a vida vivia,
sorria pra ela, ela não,
nervosa.
sorria pra ele,
ele não, incrédulo,
que fenômeno que era
e quando acabaria?
não sabia.

a noite cai,
todos saem, mas não!
que desconforto é ver,
como uma provação pela qual tem que passar,
como um teste,
de sua boca não sai nada que preste,
investe e perde,
sem nem querer.
quem iria ser senão o mesmo de sempre?
querendo mostrar esperança e desassossego,
algo que a fizesse entender,
o que é o infinito?
senão um momento bonito
do qual não queremos
nem nos permitimos desprender.

quarta-feira, 2 de março de 2011

o que te irrita?

o nacional socialismo?
o falso moralismo?
os déspotas esclarecidos?
os guerreiros deserdados,
fardados e amedrontados,
acabados, sem um traço em comunhão,
sem armas na mão,
com uma dor no peito,
sem sangue no coração.

as falsas donzelas
em suas faltas de mazelas,
bem querer delas,
que sem querer entre uma transa e outra
acabam demostrando quem realmente são,
não sabem simplesmente dizer não,
ou então não querem demonstrar que
ainda apresentam salvação.

o que te irrita de verdade?
um coração pobre e magoado,
de um dono sentado num banco de praça,
sem casa, se cobrindo com jornal.
e as autoridades, te irritam seriamente?
fico assim tão descontente,
nem sei bem o que dizer, achar.
mergulho num mar de irritação,
tentando achar redenção,
esperança na ganância de terceiros,
quartos, quintetos e quadrilhas,
assaltam e estupram suas filhas,
querias!

o que te irrita de verdade?
despertar sobre o apito do trem,
as 6 da manhã,
não ter nem a mente sã,
ter de ir trabalhar,
não acabar,
aprender a fingir não se irritar.

terça-feira, 1 de março de 2011

um mistério de cabelos longos, um poeta esforçado

de tudo que vejo tiro um tanto,
de tanto que vi um dia me espanto
de todas as coisas que trouxeram pranto,
a felicidade é da qual me escondo.
do centro da cidade, ao engenho de dentro,
do bairro de fátima ao flamengo então,
todos os caminhos me levam a ti, sempre a ti,
e em ti me acho um tanto em vão,
ou não e me faço falar, escrever, enervar,
enebriar de intensidade,
barbaridades à parte eu me sinto assim.

um ritmo rimado, um traço mal marcado,
um verso transloucado, sádico,
trágico ou um tanto mágico,
o que eu vejo é simples e claro,
um emplastro plástico e pré encharcado
com a beleza prática e despercebida à olhos destreinados,
miopia leve e breve, até vir a magia de trevas que a pequena há
de oferecer.

mas o mistério, térreo e entrevado,
que me deixa um pouco desacordado,
acordado de olho fechado,
pra dormir demoro uma música e meia,
mas vale a pena viver, e ver,
viver pra ver o que não vejo tanto,
mas que de pouco já não sei viver ser ver.
o pior poema do mundo, listrado de preto e branco

jogo-me longe,
longe me acabo
e a poesia
vai pelo ralo,
toda essa rima,
coisa nojenta,
quebra o clima
de quem não aguenta,
poemas rimados
são sem esperança,
horríveis, voltados
pra quem nunca alcança,
dilema de vírgulas,
chegando ao final,
termino essa epístola
com uma bela pá de cal.
desleixado

resolvi voltar,
sei lá, fazer.
e aí me encontro são,
sem tanta inspiração, de viver,
de entreter,
de saber porque.

resolvi voltar, razão de apaixonar,
entrar na vida, falar,
transar os temas, mandar
os eufemismos pra lá,
mas eles voltam.

voltei nem aí pra forma,
voltei sem saber de nada,
voltei tanto, para casa,
e de tanto fui embora.
agora, que faço?
acabo, sem chorar,
nem rir, amassar,
jogar e esquecer,
tantos infinitivos e
tão pouco prazer.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

quero ser cadente, fervente,
branca-alva, descontente,
iluminar o esquema, das estrelas, tê-las
como o vento sopra das caldeiras
e o amor das donzelas nas cadeiras.
diga-me estrela, quem tem brilho?
sem tu, sem dó,
não tenho mais quem ser,
nem quero querer.

sábado, 29 de janeiro de 2011

crescimento

andando virei andarilho, gozei, maltrapilho, a desunião,
de um povo ereto e contente, covarde querente de querer ou não.

passo então a sonhar,
e de trás pra frente aprendo o que é amar,
e no olhar surpreendo o que quero,
sem querer nem mesmo o sincero,
sem acertar o que entendo por mim.

o que querem não tem mesmo fim.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

meio ano, meio ano

me entrego e não nego
que entrego-me todo,
num trago, um afago,
num transe um desgosto.
em agosto um problema,
setembro um dilema,
outubro sem braço
me leva a esperança,
novembro a lembrança de um ano acabado
e num pensamento, dezembro me chega,
chega! eu penso, e em tanto regresso,
com verso eu converso e mato uma brisa
fechando a janela.

minha mente, esparrela haverá de cair
e no passar dos anos inteiros, intensos,
animais, remendos que penso em juntar,
isso tudo em janeiro, entenda meu lado,
acontecerá.
fevereiro a folia, folgada e sem tarso,
com meu pé quebrado chegamos em março,
e a bebida já tira os sentidos,
que será daqueles que o olho já viu?
e com pensamentos me vejo em abril.

em maio caio,
desesperanças me esvaio e me traio em amor demais,
coincidencias demais,
estranhezas de menos...
devo estar chegando em junho,
onde o cunho dos antepassados,
maltrapilhos e maltratados, somem, empoeirados,
rezando as novenas a crentes encapuzados.
eis que julho bate a minha porta,
vingando as mortes e matando as voltas,
encontrando trovas e cantando as donas,
enveredando sonhos e casando as moças
enlouquecendo mestres e bancando as bocas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

o inacabável inalcançavel

acabando um conto
a gente aumenta um pouco,
mesmo tudo e todos ele há de alegrar,
e se não acaba
a gente só atrasa
a leitura embaça
poesia fracassa,
sem felicidade,
sem integridade
e sem tem alguém com quem compartilhar.

faça isso, agora
ponha para fora,
veja com quem mora,
coisas que te fazem,
notícias te trazem,
e aí explode,
escreve, se sacode,
e sem tanta morte
das palavras sim!
escreva, escreva, escreva,
não deixe acabado
sem acabamento...

senta e te inspira,
ser um mal amado
não traz nada,
só ressentimento.

se nada sair, eu invento.
invento um tudo pra todo mundo ler,
invento um guerreiro, um poema sem lei,
espero que leiam e se inspirei, sei,
que nada sei, mas de escrever me faço.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

poesia não tem serventia

versos, versos, versos
para quê os quero,
senão para dar a quem gosto,
num envelope lacrado
com toda a felicidade,
todo o carinho
e tudo mais que for de bom.

versos, versos, versos,
para quê os escrevo,
senão para expressar só o que não vejo,
sentir só o que não sinto,
e então sair do tom.

sábado, 1 de janeiro de 2011

e foi apenas uma noite estranha e triste

que serventia tem as más impressões da vida,
e as pessoas, tão atiçadas com suas próprias convicções
que dizem que tudo está tão vivo, mas por dentro estão mortas?
esperando alguém socorrê-las,
esperando o anúncio das trombetas,
esperando um sinal
e sempre traindo seus sonhos.

sonhos.
com o quê ou de quê são feitos?
quisera eu poder apalpá-los, ou pisar em cima
como grama fofinha ou terra molhada.
do quê são feitos os sonhos,
tão escondidos na beleza das coisas e tão
comedidos em acometerem-se?
e contentamo-nos..

com tanto poder podre nas mãos
ainda mais podres,
como pode um sonho nascer,
ainda que seja um sonho pequeno,
ainda chorando e querendo acalanto,
querendo ainda afirmar-se?
mãos pálidas ainda existem
e são encontradas nos mais distantes cantos do mundo,
mas existem sim.
e encontrá-las é o desafio.

encontrar um sonho,
uma esperança,
encontrar um encontro que seja.
nem que o tal encontro se esconda no sonho,
e encontrá-lo já se torne um sonho,
e sonhar já seria encontrar
e então acabaria o choro.
então acabariam as tais mãos pálidas,
e então não sofreríamos mais.

a pureza não se tem, se compra, se faz acreditar,
e quem acredita em pureza, se não tem pra quem vender?