quinta-feira, 9 de novembro de 2017

confissão

eu não sabia se já tinha amado alguém
tudo me parecia velho.
eu tinha tanta coisa pra viver,
mas só sabia duvidar.

olhava em volta para minhas coisas pequenas.
tinha fotos de quando eu tinha sete anos
descabelado,
sem preocupações,
tinha DVDs que ainda não vi,
copos comemorativos, remédios dos quais dependo
tudo apoiado em estantes com origamis e muita poeira.
e tudo aquilo só me mostrava que eu não sabia se já tinha amado alguém,
eu falava sozinho sobre isso às vezes,
eu juro que não sabia se já tinha amado alguém.
me importado claro, todo o tempo,
tenho um certo senso de justiça atrelado à personalidade
que nunca entendi perfeitamente.
também conversava com muita gente
procurando entender seus problemas
e me compadecer,
mas ainda não sabia nada da vida.

eu tinha o tempo todo à minha total disposição
usava ele como escravo,
mas estragava os minutos com coisas sem nexo
jogos eletrônicos
sexo,
escrever poemas,
como se fosse fácil escrever poemas.
poesia é uma coisa raríssima,
encontrar beleza nas maiores sarjetas da lembrança,
encontrar beleza na lembrança,
eu só sabia existir,
não me lembrava se já tinha amado alguém.
já nem sabia se já tinha amado os pais
os irmãos,
ou até mesmo as coisas do dia a dia,
sorvete,
pernas abertas,
cerveja.

eu imploro para que acreditem
que eu não lembrava se já tinha amado alguém
e se for muito ofensivo para quem lê
saiba que não é minha intenção ser tão íntimo
é mais uma frustração mesmo,
até escrevendo isso já me sinto bem melhor,
acho que só amei a mim
e pra mim já basta
mas você precisa, lá no fundo
de alguém em dois momentos que podem lhe fazer falta.
na primeira gripe
e na primeira morte.
aí é que você sabe de verdade
não se já tinha amado alguém
mas se tem alguém no seu mundo

se perguntando a mesma coisa.

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