quinta-feira, 11 de outubro de 2012

longe é um lugar que não existe

no aconchego das árvores,
sobre as tais copas,
as aves gargalham e temem o homem.
lá no alto, um atalho,
tranquilo, um ensaio,
para a vida e a morte.
alegria e calvário,
um voo secreto.
calminho e regresso,
voltando e virando as
asas ao contrário.

mas que tipo de ave haveria de ser,
e por quê estaria aqui sem dizer?
e de quê seria feito um ser
que não nos desse mais regozijo?
nessa rima horrível,
tanto desperdício,
algo que me dá prazer.

seria eu ave doente,
com asa dormente?
perigo de ser,
asa avariada, perdendo altitude e
caindo em você.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

uma casa em Frankfurt, um olhar do mundo

frente ao espelho vejo tudo o que vejo,
desejos, maus gostos, medos,
cabelos dóceis em dias de treva,
cabelos, nervos em dias de enterros.
tremendo fico de pé na varanda
à contemplar coisas mais sem sentido,
ouvir de perto gritos e ruidos,
ver de relance aquilo que me mata.

sobre as muletas um chão cor de fogo,
sobre as palpebras um mundo de muletas,
pesando nas ventas, marejando os olhos de velho.
entre as pernas entreabertas, arqueadas por doença, um cão,
bicho leal e são, ainda novo.
e lá fora os cães se matando aos poucos,
diz que é pelo povo, ou por religião.

frente a poltrona, um assento vazio,
sinto um arrepio que estremece o vão
entre a consciência e o passado.
não lembro, pois vago,
conhecendo ou não,
finjo ver, ter, até ser,
verbalizar e usar as palavras.
um chinelo velho,
preconceitos,
trejeitos de soldado idoso.

não quero essa história de homens com momentos sexuais com outros homens,
beijos, carícias amores,
me dão pavores de mãos dadas por aí.
e se?
é o contrário de e se não?
os negros hoje tomam conta de tudo,
empresários,
mal dormidos,
Mários, Valdomiros,
Pedros e Cirilos,
nomes e vagabundas em suas camas.

na certidão vejo Franz, no uniforme Hermann,
tremo de pensar em Ada,
que a febre me levou embora,
pensando só nessa hora,
uma lágrima caiu.

de que me vale quantos homens sofreram de minha faca o corte?
quantas mulheres sentiram meu membro forte,
quantas vezes ainda terei de pensar em Ada?

vi sangue e lágrimas,
e prometi a mim mesmo que novamente
não veria sangue e lágrimas.
prometi a mim mesmo muitas coisas.
prometi jamais morrer
prometi jamais perder,
prometi jamais ser vulgar,
prometi jamais amotinar,
esbofetear,
procriar,
aceitar,
tolerar,
não mais matar
nem olhar pra trás.
o tempo passa depressa demais
pra quem não tem pr'onde ir.
as pessoas pensam que é o contrário, mas não.
quando se tem tempo pra olhar em volta,
não bater mais as portas,
não gritar.
o tempo voa e não tem como voltar atrás.

o resto é só dor,
um teste de uma vida sem cor,
quem sobreviveria?
estampada em meu braço direito
a aranha da morte,
de quatro patas, cruzadas em cruz
toma o meu corpo inteiro,
me tinge de preto
me asfixia,
me toma de assalto e me anuncia,
um mundo renascerá.

onde aranhas e bichos peçonhentos
não passarão de poeira histórica
batendo à minha porta,
um vendedor chato
querendo arrumar confusão,
mas que seja sem isso
e eu viva de pão, não ódio de quem nem conheço,
os poucos anos que ainda me restam...
não me resta nada, então.

entro em casa, abro o armário,
busco minha velha arma e um pano,
começo a deixá-la brilhante, reluzindo como em outros tempos mais difíceis,
guardo o pano, puído,
o líquido enegrecido e tudo,
sento na poltrona, coloco as muletas de lado,
tiro o chinelo e desligo a caixa animada.
não gosto de ouvir vozes que não estejam perto, que não posso olhar no olho.
abro o robe, fico de cuecas, o cetim é inútil e o calor intenso.
apalpo o peito, dores estranhas,
tento dormir, não consigo, o cão latindo, nada o faz parar.
a sala roda, e volta a rodar depois de uma dose.

não...
definitivamente não mais,
não quero mais ser...fazer...
não...
não quero...
por favor...
não me obrigue, não...

acordo de um sonho ruim,
breve, mas suficiente.

aborrecido olho no relógio,
venho a sentir um cansaço incomum.
tendo ou não coisas a deixar, pra quem?
não tenho, porém,
no pente seis balas,
na mente acabada
não levo ninguém.

.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

o velho

o tempo de ser augusto se foi como a brisa da manhã,
gente sã já não se vê,
tenho uma flor em cada jardim,
um perfume sem fim,
eu sinto o vento batendo
aqui dentro
esquecendo de mim.

domingo, 22 de julho de 2012

exoterismos e misticismos de domingo


já que não podemos ser o que queremos,
que queiramos ser o que podemos,
de tempos em tempos num inverno frio,
em tempos que invernos  já não são tão frios
e roupas existem para ser rasgadas,
vidas feitas para serem tiradas,
amargas e de olhos fechados.


um tempo como o nosso
de verdades e mentiras
ditas da mesma forma,
não temos escolha.
ou vivemos ou não vivemos de acordo com as regras,
acumulando as mazelas de um tempo distante
que não cobra dívidas
mas assombra velhas vidas
enquanto assopramos feridas
de vidas novas e mais delicadas
que ainda não se devem ver ser vendas
nem respeitar as lendas escritas num quarto escuro de roma.


já que não se pode ser o que quiser,
que se seja o que se pode,
sem roupas de luxo,
charutos,
chás,
infusões,
chocolates meio amargos
e momentos cheios de minimalismos.
já que é essa a condição,
não se desespere em um uísque brazuca,
não saia bebendo verdades e vomitando 
as mentiras em cima dos estofados e tapetes,
não alimente vaidades e suspeitas,
seja ti, mi, e eles,
contentes ou descontentes feitos em desfeitas.


tenha a poesia presente,
a música,
a literatura de vestibular e a já formada há anos,
porque de tempos em tempos
um amigo há de chegar
e outro vai indo embora
sem nem perceber.

sexta-feira, 13 de julho de 2012


poesia anônima


tenho um mar de gente em mim,
gente forte, gente assim feliz,
veloz, atroz, gente como a gente,
que sente, que corre atrás,
que vai por mim
que vai, não vai.


tenho um bicho aqui dentro,
bicho carpinteiro,
quase me arrebento 
tentando saber o que tem que me invade,
me dá saúde,
verdade,
me dá desespero,
lances novos,
coisas velhas,
telhas e versos,
trecos,
coisas de flor e bem querer.


tenho o mundo em um lápis,
caneta,
sangue,
imagens,
alarde, arde
só de pensar o que me dá.
escrevo com tudo,
com tudo que der,
sou anônimo que sabe o que quer,
ninguém me conhece, 
nem há de saber,
o quanto é estranho saber tanto porquê.


me dá tanta saudade de quando era assim, 
viajando e caminhando sempre pro mesmo lugar.


ouço vozes na cabeça,
na memória encontro fatos,
me refaço em páginas,
sou um papel dobrado,
sou anônimo, enfático,
sou reumático e traumático,
de "áticos" e "ônimos"
faço meu nome.


(o sono sempre me traz motivos pra acordar).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

ambientes e interiores

da janela da sala vejo romances,
nuances, cores,
amores e desamores,
morenas, sabores,
mortes e vidas sem vida
passando por debaixo da janela.
vejo cida, maria e gilda,
confabulando sobre o preço do pão,
não abrindo mão de seus trocados.

da janela da cozinha vejo e sinto cheiros,
passo fome, como bois inteiros,
depende do dia, depende da tia,
depende de boa vontade.
mendigo uns trocados,
como doces e amargos,
vejo alegria num café quentinho.

da janela do quarto vejo sexo,
sem nexo, intenso, tenso,
rostos quentes, silhuetas,
lunetas espionando,
olhares por todos os lados, cantos,
falo baixinho,
não acordo ninguém
com barulho de descarga.

da janela da alma
abro várias portas,
escancaro-me,
solto as maçanetas do pudor.
chaveiro sou,
entrando sem pedir,
saindo sem saber,
me desgraço em ter tantas chaves
e não saber em que porta bater.
nordeste mal retratado

numa cidadezinha de recife
alguém brinca de ser gente
antes do por-do-sol.
antes que venha o sol queimando as cabeças
e as esperanças.

naquela cidadezinha crianças corriam
vitoriosas de estarem ali,
simplesmente tendo ar e dor.

numa cidadezinha qualquer do recife
tem barulho de televisão sintonizando,
e o radinho velho toca alguma coisa.

é a vida chegando?
sonho

às vezes fico pensando
que nesse mundo só há fantasmas vivos,
livres são, mas com luvas de seda,
não tocam em nada, não creem,
não tem certezas,
nada são para qualquer manhã.
às vezes invento estórias,
conto,
reescrevo a história do mundo,
vislumbro um fim,
assim sem mais nem menos,
rabisco, escrevo,
me dou esses luxos todos,
não tenho modos,
vim para ficar.

às vezes tenho saudades,
de algo que dói o peito,
suja as mãos,
e limpa da testa beijada o batom,
simplesmente o tom de voz,
uma vila entranhada de valores estranhos.
uma vila de seres humanos,
onde se encontra o coração.

às vezes reecontro pessoas,
tão estranhas quanto um estranho.
não me identifico com todos,
sou anti social embaixo d'água,
atrás das portas,
paredes,
cores mortas,
sombras me invadem e saem de perto,
indivíduos, trajetos,
não lembro mais quem.

às vezes eu fico pensando,
que nesse mundo só há fantasmas vivos,
passeam arrastando correntes,
arrastando lembranças,
sujando mentes,
tão descrentes de si mesmos,
que existem, sim,
mas não vejo,
existente sou, em desprezo
a eles.

entre nós,
o que se passa na cabeça antes de dormir?
cosmogonia
às vezes penso que o mundo inteiro foi feito de mim,
um pedacinho aqui, outro ali, e ele foi feito assim.
na perfeição que hoje contemplamos
e vamos juntos assistir o fim,
estou chegando perto da minha explosão.

que se dane o mundo.
o bater das asas

um som baixinho eu ouço,
pousa a gaivota lá fora.
onde será que ela mora?
no céu que não é,
pois bate as asas mas também anda a pé!
quem será que viu a gaivota?
traz meu coração que nem mesmo voando a gaivota quer.
alegre

um rapaz faz comida para seu amor.
corta batatas, cebolas,
refoga as coisas,
joga no fogo,
põe a mesa e uma flor fica entre ele






e o abismo que é Carlos.
(se fosse Maria, todo mundo ia entender)
efemeridades, dívidas e vida

agora foi o velho Jorge,
ontem, o nestor da padaria,
meus pais só o pó,
na lápide os dizeres automáticos
e um caixão dividido à prestação.
às vezes parece que tudo vai morrer
menos eu.
e eu só posso mesmo insistir.

segunda-feira, 11 de junho de 2012


discordo


discordo da alegria
que entende ser minha quando não a quero.


discordo da tristeza toda 
que vem me cobrir a noite.


discordo das mesas de bar,
que tentaram levar meu amor e minha alma embora.


discordo do tempo que é curto
e me vejo esvair todo no espelho,
discordo tanto de não concordar com nada que me traz a vida.


discordo mais ainda por ser deturpado,
corrupto, aveludado,
medindo atitudes,
pisando em poemas,
jorrando palavras,
indo pelo ralo.

sexta-feira, 8 de junho de 2012


impessoal ou eu


me sinto bem,
me sinto woody allen
de óculos e nenhuma pretensão,
sem ter aonde ir e estar em todos os lugares,
vivendo e não rimando,
escrevendo peças,
ganhando tudo sem querer nada,
fazendo piada,
sendo gênio de bar,
falando pra quem quiser escutar
sem ter ninguém pra falar.


me sinto bem,
me sinto dave matthews,
calando quando se deve falar,
falando quando acaba de acordar,
falando ao coração,
ao estômago,
meio vivo, meio morto,
trancado em mil pensamentos.


me sinto bem,
ou não,
há quem diga, transtornado,
em cheque,
de pileque,
uma festa, um gesto sem fim de ok.


me sinto bem,
eu juro, não perguntem 
por mim pra ninguém,
achem-me em mim e virem-se,
ajudem, se acharem prudente,
não é pedido,
não sou carente,
se me entende
nas horas vagas e exatas do meu querer bem,
humores, tenho vários,
sapatos, tenho poucos,
ando descalço
ao encalço da alegria,
em camas de gente desconhecida,
mandando a vida pro caralho,
nunca fui amado,
mas já rimei amado com caralho e ninguém reclamou,
então vou indo.


me sinto bem,
hoje,
não ontem,
nem provavelmente amanhã,
mas até quando as lágrimas choradas asoberbarão (isso não existe)
as alegrias e risadas com as quais um dia já machuquei o abdômem
e hoje só machucam a mente de lembrar?
me sinto tão bem quanto você,
portanto não me venha dizer
até logo, se não pretende voltar,
não me diga adeus até ter a certeza de que na minha porta
já não bate mais a tua mão,
não me entregue seu coração a não ser que queira a mim machucar,
não me faça de bobo se não quiser apanhar,
não me leve em consideração
se não o fizer chorar.


[morra se vier com flores]

idoso


tento me libertar de coisas tão novas,
ser velho me inova,
me traz novas coisas,
novas esperanças,
novas vidas cruzam velhos caminhos
e se perdem no destino de serem lembranças,
sonhos lindos,
que só vivem pra acabar.


tento ser você um pouco,
um pouco de mim, um pouco assim,
assado,
prostrado, mal dormido e acabado,
razão do viver de alguém,
com mais de cem pessoas
sem perspectiva nas costas.


é a vontade de dizer que não te amo,
é a idade chegando,
é um caminho ou outro
sofro mudanças,
mas permaneço,
em essência,
em poemas, musicas e defeitos.


sou um vinil arranhado
tocando a mesma música boa de novo e de novo.


vou


estou em frenesi,
frenético,
frisado em cabelos embaraçados de negra,
cabelos lisos,
mulheres feias,
amando-as,
vivendo uma vida de céu.
darei tudo,
amor, dores, dívidas,
dou tudo que sou
mesmo sem tempo para procurar filosofia em coisas poucas.


mas não me deixei levar,
se me deixar, eu até vou sozinho
e caminho até a eternidade sem sentido.

dia dos namorados, não

não me canso de você
pois não há porque,
razão então qual é?
você, mulher,
é a verdade,
você namorada
é a cumplicidade,
você pessoa amada
é o que preciso,
sem virgulas, nem compromissos,
para ser a vida inteira omisso,
vivo e cheio de segredos.

sábado, 12 de maio de 2012

inspiração?

varia de pessoa pra pessoa
eu acho,
mas o que eu faço qualquer um pode fazer.

uma caneta e um pedaço de papel rasgado
é arma pra quem quiser expulsar um pouco de alma.
pra você

pra você que me atura um bocado,
pra você que já sofreu calado,
pra você que me viu arrasado,
magro,
embriagado,
pra você que merece uma estátua,
pra você que é natureza morta,
pra você que inventa um romance,
que bate palma na hora errada,
pra você que me chama de amado,
pra você que é um ser amado,
pra você que é um ser humano,
te dou a vida, tão desesperada,
tão desesperado eu invado o teu mundo,
tão exasperado te grito, te fumo,
te como, me esbarro em troços jogados,
rimados, cansados, sem profundidade,
sempre na viagem de te ter na cama,
redonda, quadrada,
cama, sempre a cama,
que guarda os amores
encara os armários,
nos vê sem pudores,
sempre desnudos e fracos,
cansados do dia,
dia de alegria,
viva a mente humana e suas temperanças,
minhas temperaturas altas,
minha doce vingança,
minha vivência cansa,
mas tenho você.

por você eu fecharia as pernas,
por você eu compraria flores,
por você eu escrevo poemas,
por você esqueço meus horrores,
seria tão bonito se fosse verdade,
por você até esqueci amizades,
coisas sem alarde,
cafés e bobagens,
biscoitos,
viagens de ônibus,
mortos,
sonhos.

por você me jogo mais pro alto,
por você ignoro a vida inteira,
por você me faço inteligente,
e durmo do lado esquerdo da cama.

até o amanhecer chegar,
e levar tua beleza.
tua pureza,
teus cabelos,
tuas manhas,
endereços,
interesses
tuas fronhas,
o teu cheiro,
suas artimanhas,
meu desejo,
então morremos juntos.

frustrações com passagem de tempo


tive vontades,
acordei, realizei,
voltei a dormir.
cansei de tentar ser quem sou,
um fantoche de meia,
botões no lugar dos olhos mortos,
ordens,
fotos,
cortes e recortes.


manipulado,
amarrado com a mão nas costas,
apostas.


tive vontades,
um dia,
sei que tive vontades,
me apaixonei,
eu sei!
não volta,
como me perdi em algumas vidas
e não volta,
como me esqueci entre chegadas e partidas.

quarta-feira, 2 de maio de 2012


mentiras colhidas, coração sofrido

tem que ser forte para plantar mentiras.
não, não digo que jamais fiz
e jamais direi que é errado,
mas tem que ser forte.
dia desses me peguei mentindo para aumentar,
uma mentirinha tola,
passei de bom à sensacional,
e a pessoa se encheu de alegria com o elogio,
frio como minhas mãos ao escrever este.
achou logo que tinha talento pra coisa e foi tentar a sorte no rio de janeiro,
resultado. uma vida arruinada por palavras doces.

querem outro exemplo?
pois vos dou agora mesmo!

uma poesia.
é uma mentira tão deslavada que produz sujeira,
não é capaz nem mesmo de esconder a poeira
de livros antigos e tapetes.

leia uma poesia para alguém.
e será um mentiroso cruel,
de fazer se apaixonar quem não queria ser incomodado,
despertar sentimentos ao invés de explorá-los,
cuspir no meu rosto e me dizer
te amo.

terça-feira, 1 de maio de 2012

o mais forte de todos, que todos queriam saber quando sairia OU prostituindo dilemas


sigo assim,
[como alguém me disse uma vez,
que tudo que vem do coração e dos dilemas
é facilmente encarnado em poesia,
desfruta logo de alma,
entranhas,
esqueleto,
tudo,
mudo,
tudo muda
assim do nada e vai embora.
mas decepções sempre voltam
e voltam,
e revoltam
mantendo acesa a chama pura que queima os pudores,
e você escreve,
escreve,
escreve,
se esquece de esquecer
ou sequer sequelar
e viver pra si.
é um rio corrente,
armadilha montada,
pronta pra arrancar-lhe a mão,
jogar-lhe no chão e aí tudo acaba.
parece forte, não?
um sentido sétimo ou oitavo,
não conto traços de caráter desviado
que já perdi no quinto verso].


vou assim,
prostituindo sentimentos,
meus demônios
sempre loucos e enfermos.
meu coração desconheço sem roupa provocante,
na rua a batalhar trocados.
um sexo, mereço.


sou da letra, agenciador,
sou do verso, maquiador,
sou da estrófe, figurinista,
sou da vida, uma puta.

filmes franceses e os pequenos prazeres


em um lugar pequeno
fico gigante de pensar.
quebro portas e janelas,
apago velas com a força da palavra,
que pode ser vaga,
disposta, aposto,
proporcionar alegrias,
alegar propostas ou insanidade.


em um lugar enorme
sou pequeno aos teus olhos,
vivo atento só pensando
quanto tempo estive atento
sem o amor encontrar.


o amor tem seus joguinhos
uma carta de alguém


prefiro poesias de armário,
sabe aquelas em sacos,
envelopes pardos,
versos magros,
quiça até chatos,
sem cor.
é aí que se esconde,
não sempre, só as vezes
a verdadeira beleza,
que por detrás da tristeza
mostra a cara e canta,
ainda tímida pro mundo
grita e se levanta!
coisas internas,
amor já gasto em poesias empoeiradas.
parece simples, mas não é.
arrumação

arrasta,
afasta,
vai, encaixa,
amassa,
corta,
passa,
lava,
limpa,
trava,
espaço,
não faço!
faço,
tá, faço!
olha,
acaba,
arruma,
empaca.
que saco!
pega o saco,
tá arrumado.

vai na cozinha,
pega um copo de leite,
senta no sofá limpinho,
bota o pé pra cima,
não me irrita!
pega o salgadinho,
come, faz farelo,
se distrai com a tv e
derrama o leite no chão.
pega o pano,
passa o pano,
pega a água,
joga a água,
joga,
embaça e desembaça,
torce o pano,
passa o papo,
que desgraça!